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CAVALERA CONSPIRACY- "Blunt Force Trauma"
Ano - 2011
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:. DICO . a opinião .:


Temos o que merecemos

Texto escrito ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico

Para que esta crónica seja plenamente compreendida impõe-se desde já a definição do conceito central que lhe subjaz: o coaching. Coaching é um processo de desenvolvimento pessoal e profissional que visa maximizar as potencialidades das pessoas rumo à concretização dos seus objetivos, sonhos e metas nas várias dimensões das suas vidas. Para isso, o profissional de coaching (coach), que se rege por um exigente código de ética, usa metodologias e técnicas específicas ao longo de várias sessões individuais e confidenciais, adequadas ao melhor desempenho possível do cliente (coachee) na prossecução do(s) objetivo(s) estabelecido(s).

Ou seja, coaching não é psicoterapia, aconselhamento, consultoria, tratamento ou formação. Com efeito, o coach não ensina, não dá respostas, conselhos ou orientações, embora influencie o cliente de forma positiva rumo à concretização dos seus objetivos. No entanto, é o próprio cliente que descobre as respostas, as soluções e as estratégias de ação através das perguntas colocadas pelo coach, da reflexão gerada por elas e das técnicas usadas ao longo do processo de coaching. Chega assim a um maior grau de responsabilização e eficácia nas ações a realizar tendo em conta o objetivo final.

Inovar, preenchendo lacunas no mercado

Em junho do ano passado concluí a minha formação profissional em Coaching, obtendo a respetiva certificação internacional, que me permite exercer a profissão de coach. Despedi-me da empresa em que trabalhava para me dedicar a 100% a este empreendimento. Passei os quatro meses seguintes a preparar e a divulgar o meu negócio. Apostei tudo no projeto.

O meu público-alvo? O universo de agentes envolvidos no mercado musical da grande Lisboa, fossem eles bandas, músicos, produtores, DJs, compositores, letristas, técnicos de som e luz, orquestras, maestros, professores de música, editores, A&R’s, retalhistas, jornalistas e críticos de música, promotores ou roadies, independentemente de serem profissionais, semiprofissionais ou amadores. A longo prazo era meu objetivo ampliar o projeto ao restante território continental.

O mercado nacional apresentava na altura uma total lacuna na área do coaching dirigido a este segmento de mercado, pelo que decidi preenchê-la criando um projeto original e inovador, nunca apresentado no país. Fui o primeiro coach profissional a disponibilizar serviços especificamente pensados, estruturados e organizados para os agentes musicais lusos.

Assim, nos referidos quatro meses dediquei-me ao projeto em exclusivo. De corpo e alma. Redigi e preparei documentação vária, essencial ao exercício da atividade, bem como diverso material promocional e publicitário: desdobráveis informativos, flyers, anúncios, cartões de apresentação, entre outros. Palmilhei quilómetros de automóvel e a pé para entregar alguns desses materiais em numerosas lojas de instrumentos e de CD’s, em escolas de música e de DJying, salas de ensaio, estúdios de gravação, etc.

Fiz numerosos contactos no meio. Redigi press-releases, que enviei para mais de 80 órgãos de comunicação social generalistas e especializados, underground e mainstream, desde rádios a canais de televisão, com especial incidência no online e na imprensa. Enviei mailings publicitários e newsletters eletrónicas para profissionais do meio musical, publiquei anúncios na imprensa e estabeleci parcerias com duas empresas que me forneceram uma parte dos seus espaços para que aí pudesse desenvolver a minha atividade. Firmei ainda outras parcerias a nível publicitário. Cheguei ao ponto de ter que redigir eu próprio duas das meras quatro notícias publicadas acerca dos meus serviços de coaching. Preparei ainda apresentações públicas para divulgar o serviço, que não chegaram a realizar-se por falta de comparência do público. Nenhum destes esforços concertados se traduziu em benefícios.


Portugal, uma nação tacanha

Incompreensivelmente, apenas duas pessoas recorreram aos meus serviços. Uma delas desmarcou por duas vezes as sessões agendadas. Ou seja, a sessão inaugural não chegou a realizar-se. A outra contactou-me apenas oito meses depois de o serviço estar disponível no mercado. Nessa altura já há muito que os senhorios dos espaços que tinha ao meu dispor me haviam informado que, trazendo eu rentabilização zero aos seus negócios, teriam que disponibilizar essas áreas a outras pessoas, com negócios potencialmente mais rentáveis. Nada mais justo. Desiludido e sem tempo a perder (a sobrevivência não espera), no final de outubro do ano passado, escassos dois meses após ter iniciado o projeto, enveredei, com sucesso, por outra carreira. Nos meses seguintes tentei continuar a desenvolver o projeto, agora num regime meramente de atividade profissional secundária, mas sempre sem êxito. Por fim, desisti por completo.

Fiquei siderado por constatar o total desinteresse da generalidade dos grupos, músicos e outros agentes nacionais por um veículo tão útil no acesso à concretização de objetivos e maximização de meios / recursos rumo ao sucesso na carreira como é o coaching (haverá certamente alguns que recorrem a este tipo de serviços, mas serão em número ínfimo). Será desconhecimento? Resistência à novidade? Receio da mudança? Desconfiança infundada? Seja como for, esta realidade é tanto mais bizarra quanto maior se revela a taxa de êxito dos músicos estrangeiros que usam o coaching enquanto ferramenta de desenvolvimento pessoal e profissional.

Usado há décadas com magníficos resultados em países como os Estados Unidos, o Reino Unido, a Espanha ou o Brasil, o coaching para músicos é amplamente reconhecido pelos agentes musicais desses países como potenciador das suas carreiras, elevando-as a novos patamares de exposição e desenvolvimento. Uma vez mais se constata que, para o português, o que é novo e diferente constitui de imediato objeto de estranheza e suspeição. Levantam-se sobrolhos ameaçadores e desconfiados para logo se dizer ”nnaaaa, não me interessa”, mesmo antes de sabermos exatamente do que se trata. É tristemente característico da identidade nacional não querer mudar as nossas rotinas, obter novas competências, explorar o desconhecido. Por isso não evoluímos!

Nesta linha de raciocínio, a impressionante falta de visão e abertura à novidade de 99% das publicações nacionais especializadas na área da música que foram contactadas (inclusivamente do segmento underground) mais do que uma vez através de press-releases no lançamento do serviço em Portugal reflete-se igualmente numa resistência bacoca à novidade.

Verifiquei com amargura que muitos agentes da comunicação social, mesmo que underground, cuja obrigação é informar os leitores sem preconceitos, alertando-os para todas e quaisquer novidades que surjam na área da música, ignoraram a informação veiculada, numa lógica retrógrada, ultrapassada e de pura estagnação, que tarde ou cedo os conduzirá a um beco sem saída. Preferem fazer sempre mais do mesmo, da mesma forma, com base nos mesmos pressupostos. É mais cómodo e não dá trabalho. Mas o preço que inevitavelmente irão pagar – o desinteresse dos leitores – ensiná-los-á a pensar de outra forma.

É difícil fazermos algo por nós próprios. Alterar mentalidades ultrapassadas mas profundamente enraizadas no subconsciente coletivo dos portugueses. Os desafios que se nos afiguram no presente e nos anos vindouros não auguram nada de bom caso não nos decidamos a pensar, já, de forma diferente. Mais evoluída, informada, aberta. Não gosto de invocar a máxima popular “este é o país que merecemos”, mas por vezes é impossível não o fazer.

Dico


Posted by Hugo Guerreiro on Quarta-feira, Dezembro 28, 2011 at 00:20 | Permalink

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    O Autor | O Projecto:
    Lembro me do meu primeiro disco. Paradise Lost, “Draconian Times”, comprado em 1996. Fez-me cair na rotina daqueles que ouvem música, este género em especial: achar que podia fazer mais qualquer coisa, além do que apenas ouvir. Escrever. Numa época em que as existiam bastantes fanzines, e que a par dos programas de rádio, marcavam imenso a divulgação de bandas underground, crei mais uma. Diabolicus Diluvium, com a ajuda do amigo Bruno Lemos. Os dotes informáticos eram pouco inferiores ao que são agora, muito curtos, daí termos elaborado um primeiro exemplar, apenas com duas folhas, e que seguia a linha de algumas que circulavam na altura. Nada de transcendente, bem pelo contrário, o mesmo se diga em relação à escrita. Primeira banda entrevistada, os Fatality, banda de Grindcore, e recordo perfeitamente a piada mais frequente na altura, de não divulgarmos a nossa idade, temendo que as bandas não respondessem às nossas cartas, o mesmo no gesto mais vulgar, o de enviar uma carta, que continha na saudação Hail!, e nós ficarmos sem saber o que queria dizer tal termo. A Diabolicus Diluvium acaba por durar cinco anos, erguendo-se num número de páginas muito bom, vinte e cinco, e onde foi editado uma compilação, “Transcending Plasma”, sendo importante destacar nessa fase Pedro Amaral, que passou a cuidar da parte gráfica.

    Como todos também senti mudanças na minha vida, falo no plano pessoal. Importantes, em nada relativas, algumas delas já se denotam naquilo que hoje faço. A pausa. A inquietação por não escrever mais desde o fim da Diabolicus Diluvium e para fazer face a isso, a criação de uma newsletter de apenas uma página, que chegou a ter o seu número 0, sem nada de mítico, pois já não havia pedalada para lutar contra os avanços informáticos, que galoparam contra o tempo e contra tudo o que de mais tradicional/formal se fazia. Era inevitável. Dei lhe o nome Daemoniah.

    Lembro-me de outra data, 2000. Comecei a colaborar num programa de rádio, com o orgulho que ainda tenho, ao mencionar esse facto. O Caixa de Pandora, que outrora se chamara Eutanásia, ou Cessar-fogo, e que hoje opera como Segredos da Lua, apresentado por Paulo Gonçalves, pretendia um espaço quinzenal, com três demos. Entre algum pavor, pelo facto de transpor vocalmente, aquilo que normalmente realizava por escrito, o convite tornava-se mais aliciante (leia-se perigoso) pelo facto de apresentar três novas maquetas todos os quinze dias. A rubrica chamava-se Esplendor do Kaos, durou quatro anos, traduzindo-se no projecto que mais orgulho, volto a frisar o termo, me deu, por mais importantes que a Diabolicus Diluvium ou o DaemonivM tenham sido/sejam. Surge o DaemonivM...

    Fruto nas novas tendências e por mais que se diga (ou sinta) preferência pelo formato tradicional, em papel, assim como pela facilidade em constituir um blogue, surge o DaemonivM, anunciado na outra resenha como o passo seguinte (porque não dizê-lo final?). Antes porém, uma edição em formato papel, mais uma, com a denominação D:/moni1/, que depois iria ser transposta para o blogue, em conjunto com o Opuskulo. Ainda hoje me parece uma aposta interessante porque em apenas quatro páginas se contrapunha ideias e escrita. Durou apenas a edição de estreia. Havia então que indagar sobre o que era um blogue, achar um endereço, que ainda hoje causa enganos. Procurou criar-se um link que usasse as iniciais do abecedário mas que acabasse por formar demonium. Daí o abcde e que origina algumas trocas de nome. A história mais, já mais recente reporta-se a Outubro de 2005. Numa altura em que existiam um número elevado de espaços com o mesmo formato, com a mesma temática, havia que procurar diferenças. E nesse campo parece-me que o DaemonivM sai vitorioso. Desde as entrevistas realizadas todas as Segundas- feiras, os comentadores frequentes, passando pelo evento comemorativo do primeiro aniversário, e pela distribuição de bandas, onde o balanço é positivo, convém mencionar um aspecto fundamental: a regularidade. Novo formato do espaço, actualizado de acordo com as necessidades de quem o visita e de quem o realiza, o agradecimento ao António Paulo Chaparro, pelas horas realizadas em torno do DaemonivM.

    Lisboa, 11 de Novembro de 2007

    18H53M

    Hugo Guerreiro

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